Expedição UMM a Marrocos

Disclaimer: Este é um post demasiado longo para quem não gosta de ler ou de relatos de viagens…demasiado curto para quem gosta de uma boa aventura!!

Uma aventura que começou com um desafio de um grupo de amigos, entusiastas de uma marca nacional de veículos 4×4…os UMM! E o desafio era nem mais nem menos que levar os nossos UMM numa viagem por Marrocos!

Saltando os meses de preparação das viaturas, que abordarei num futuro post provando que veículos low cost também nos podem proporcionar aventuras de uma vida, eis-nos algures na margem sul, numa manhã de sábado, 10 UMM’s e 2 Land Rovers!

UMM

Rumo: Marrocos!!

Dia 1 (600km): a viagem era longa, os veículos com a sua idade e “manias” e portanto optamos por rumar até Tarifa, pernoitar e passar para Tanger apenas no segundo dia. Uma chegada a Tarifa muito atribulada, como é típico da zona…com muito vento a fazer os carros dançar na estrada, alguns deles com o centro de gravidade acima do recomendado face à carga que levavam acima dos tejadilhos!!

Dia 2 (120km): uma saída de Tarifa com o nascer do sol, como seria hábito das nossas saídas diárias para a estrada, por forma rentabilizarmos ao máximo os dias de viagem. Em Tarifa o processo de embarque é simples, as revistas são mínimas e os processos burocráticos tratados a bordos, pelo que rapidamente tínhamos os carros dentro do ferry e nos perfilávamos na fila para carimbar passaportes. Não sou muito dado a navegações e para não variar, comecei a desejar o final daquela viagem de embalar, enquanto esperava na fila…era dos últimos da fila. Finalmente passaporte carimbado! Olho pela janela e o ferry está a fazer manobras para atracar em Tanger! Nada mau, 30 minutos e estamos em África! Vamos para os carros!

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Reunida a caravana, rapidamente nos fizemos à estrada, começando a apreciar o que Marrocos tinha para oferecer aos recém chegados. Algo que nos acompanharia durante quilómetros eram enormes estandartes, claramente com mais de 5 metros de altura, envergando a bandeira de Marrocos.

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Rapidamente passamos a reconhece-la onde quer que fossemos, tal foi a quantidade de vezes que por ela passámos. O rumo desta feita era Chefchaouen, a cidade azul.

Outro aspecto que passou a ser habitual ao longo de toda a viagem foram as vendas ambulantes. De tudo um pouco se vende na berma das estradas mas principalmente artesanato e comida.

E eis-nos na cidade azul, Chefchaouen!! Cidade azul, pois as imagens falam por si…Marrocos atinge tipicamente temperaturas muito elevadas, que aliás, se começavam a fazer sentir na pele, e os habitantes desta cidade descobriram em tempos que ao pintarem as casas e as ruas de azul, a cidade seria um pouco mais fresca e agradável! Facto é que no seu interior, o calor não se fez sentir da mesma forma…a cidade azul funciona!!

Dia 3 (240 km): e ao terceiro dia, o rumo seria a cidade de Fes, com uma paragem a meio caminho, um tanto ou quanto peculiar para quem viajava em território há centenas de anos sob domínio muçulmano…as ruínas de Volubilis!

A ruínas de Volubilis são das ruínas do império romano mais bem conservadas a nível mundial. O tempo gasto na sua visita foi sem dúvida dado por bem empregue, principalmente por alguém que gosta de história e de civilizações antigas. Nota de mérito ao guia que nos acompanhou que, em espanhol, nos descreveu detalhadamente a cidade de Volubilis. Creio que por diversas vezes me senti na era romana, dentro daquela cidade, ainda ela erguida e em funcionamento, tal era o entusiasmo e o detalhe com que o guia nos explicava a sua história!

De Volubilis a Fes seria uma curta distância e rapidamente chegamos à nossa primeira grande cidade marroquina. Subimos ao forte que se ergue no topo de uma colina e do alto foi possível vislumbrar a medina e ter uma noção da sua dimensão. Com alguns pontos de visita obrigatória, lá nos infiltramos na medina, passando por aquela que nos informaram ser a rua mais estreita de Fes…e era efectivamente estreita ao ponto de alguns de nós terem dificuldade em andar na mesma de frente…a rua não teria mais de 50 cm de largura…

Dentro da medina, um ponto de visita que é cartão de visita de Marrocos…as tinturarias! As tinturarias são o local onde as peles são tingidas das mais diversas cores para mais tarde virem dar origem aos mais diversos acessórios de vestuário. É um processo que vale a pena assistir, pela sua forma primitiva, desde o tratamento das peles, junto a um curso de água que atravessa a cidade, até ao tingir das mesmas. As tinturarias podem dar um postal bonito e colorido (não era o caso no dia em que lá estivemos) no entanto o odor que se faz sentir no ar retiram o encanto que qualquer postal lhes possa dar. No entanto a visita vale a pena!

Dia 4 (250 km): Novo dia e novamente nos fazemos à estrada. Desta vez o rumo seria Khenifra. Mas antes de chegarmos ao destino, passagem obrigatória pela Floresta dos Cedros, uma floresta com imponentes cedros, alguns deles centenários face à dimensão que apresentavam! Os cedros por sua vez davam abrigo a um ser nosso primitivo, o macaco! Aproveitamos a visita à floresta para almoçar e interagir com esta espécie. Inicialmente ambas as partes tímidas e reticentes quanto a uma possível aproximação mas rapidamente o “gelo” foi quebrado e já os macacos vinham comer à nossa mão, circulavam pela clareira formada pelos carros, saltavam de carro em carro, “roubavam” o que lhes surgia à mão e foi portanto um almoço acompanhado de muita macacada!

Seguimos viagem até Khenifra, onde pernoitaríamos e ficaríamos muito próximos do Atlas e de uma longa e inesquecível aventura pelas montanhas marroquinas!

Dia 5 (330 km): Deixando para trás Khenifra, tínhamos pela frente o imponente Atlas! Seria uma jornada longa, pelas montanhas, até chegarmos a Boumalne Dades. Com o rumo marcado para a vila de Imilchil, o destino eram as pistas com arrebatadoras paisagens pelos montes, vales e planaltos que o Atlas nos proporcionava e passagem pelas Gargantas de Dades, consideradas o “Grand Canyon” marroquino!

As montanhas proporcionaram-nos um vasto leque de sentimentos…desde o deslumbre das já referidas paisagens até à iteração com os povos que habitam estas montanhas, pessoas que vivem com pouco e do pouco que lhes é possível obter! Os momentos mais emocionantes foram vividos na passagem pelas montanhas do Atlas e pela convivência com estas pessoas, com as quais fizemos questão de partilhar muito do que levávamos para doar (roupa, calçado e alguns brindes).

Da parte que me toca, o momento que registo com mais emoção terá sido sem dúvida quando circulávamos no alto da montanha e do vale vejo um pequeno ponto mexer-se…era um pequeno pastor, um miúdo que não teria mais de 10 anos…e corria como se pela vida fosse, subindo a montanha em direcção à caravana na esperança que algo lhe fosse oferecido. No momento parei o UMM, peguei nalgumas t-shirts que ainda tínhamos e corri colina abaixo ao encontro do miúdo…explicar aquela momento por palavras não me é possível. Será recordado por mim e por alguns que também o viveram a partir dos carros e enquanto puder recordar esta viagem e este momento especifico, não me esquecerei do sorriso e das palavras daquele miúdo – “Merci monsieur!!…merci monsieur!!

A ele agradeço a lição de humildade e o sentido mais puro e simples que é a vida humana!!

Com esta experiência e com o cair da noite a viagem prosseguia até à cidade de Boumalne Dades, onde pernoitaríamos.

Dia 6 (240 km): Novo dia e novamente na estrada, deixando Boumalne para uma passagem pela cidade de Tinghir, uma cidade localizada no meio das montanhas e estranhamente rodeada de uma vastidão de palmeiras…uma paisagem digna de um oásis ou miragem do deserto!

No seguimento da viagem, visitaríamos outro ponto de referência de Marrocos e ponto de passagem obrigatório – as Gargantas do Todra!! Um desfiladeiro arrebatador, com uma paisagem única e a sua conhecida e peculiar estrada, a qual faríamos para rumar até Erfoud.

Em Erfoud, acabaríamos por recarregar baterias no belo Hotel Xaluca!! O merecido descanso, às portas do Erg Chebbi, o deserto que nos esperava no dia seguinte!!

Dia 7 (120 km): Este dia reservava aos aventureiros e entusiastas da condução 4×4 alguns dos momentos mais extraordinários de condução dos nossos UM e Land Rovers. O caminho entre Erfoud e Merzouga era feito de longas e largas pistas, o que proporcionou à caravana um ritmo e um progresso nas pistas único! Cada um tirava o maior partido do seu carro e da imensidão de pista que tinha pela frente…a estrada era como se não existisse e o caminho era cada um que o fazia!!

E depois das pistas, começou a surgir a areia, as primeiras dunas e finalmente estávamos no Erg Chebbi! Rumávamos ao albergue onde iríamos pernoitar, em Merzouga, em acampamento berbere.

Não podíamos dispensar a experiência de visitar o deserto acompanhados do animal que melhor conhece o deserto – o camelo!

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Dia 8 (106 km): De Merzouga saímos, sempre por dunas, deserto e pistas de areia, onde a diversão da condução aumentava à medida que as dunas eram transpostas, cada vez maiores e mais íngremes!

Acabaríamos por sair do Erg Chebbi, em direcção ao albergue de Mharech. E novamente as vastas pistas, outrora usadas pela famosa prova Paris – Dakar, estavam à nossa disposição para fazer quilómetros até chegarmos ao nosso destino.

Dia 9 (410 km): Do albergue em Mharech, o destino era a cidade de Ouarzazate, a meca do cinema em África! Séries como Game of Thrones foram em parte filmadas nos estúdios e cenários naturais de Ouarzazate.

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Dias 10 e 11 (220 km): O dia seguinte seria o prenúncio para dois dias de plena loucura, numa das cidades mais loucas de Marrocos, Marraquexe!

Nestes dois dias os carros ficaram a repousar no parque do hotel e rumamos à medina de Marraquexe, uma loucura em todos os sentidos!! Um misto de sentimentos, de emoções, de actividades, de gostos, sabores e odores…uma experiência que soube a pouco!! Quando terminávamos o segundo dia, a maior parte lamentava não poder continuar pela medina, no famoso regateio das compras, muitas vezes regateando o ridículo – recordo-me de estar a regatear um artigo que não custava 1€…não era por mal, é um vicio que nos é imposto pelos marroquinos!!

Dia 12 (400 km): De Marraquexe, seguiríamos em direção a Rabat, com uma paragem a meio para um visita aos vestígios do império português em África…uma paragem em El Jadida, para visitar o forte e a cisterna portuguesa, relembrando a influência portuguesa por terras marroquinas!

Terminada esta visita, a viagem continuava, agora em direção a Rabat, local onde iríamos passar última noite antes do regresso a casa.

Dia 13 (950 km): O último dia desta viagem expedição! Sairíamos de Rabat bem cedo, pois o caminho era longo, e sempre junto à costa marroquina fizemos os últimos 900 km que nos trariam de volta a Portugal! Com os quilómetros que tínhamos por percorrer foi um dia de muita estrada, sem paragens a não ser as estritamente necessárias no entanto ainda houve tempo para algumas peripécias “automobilísticas”, nomeadamente, a escassos quilómetros de Casa Blanca, alguns de nós terem conduzido pelo separador central da autoestrada marroquina, fugindo ao trânsito caótico provocado por um acidente e essencialmente fugindo dos “oportunistas” que rapidamente um português local fez questão de nos avisar, pois parece que quando há trânsito, alguns locais daquela zona invadem o trânsito (sim, mesmo numa autoestrada !!) e assaltam as caravanas que claramente se destacam no meio do trânsito. Tudo correu sem problemas e após algumas horas estávamos novamente a rolar, terminando a aventura por terras Africanas onde havia começado, em Tanger e umas horas depois, já noite dentro, terminava esta aventura com a chegada de todos a casa!!

Em resumo, para os que viveram esta aventura, uma experiência inesquecível e uma enorme vontade de repetir! Fica também a prova de que uma viagem com cerca de 4000 km percorridos é possível de ser feita com veículos com idades superiores a 20 anos, sem haver registo de avarias graves que tenham impedido a progressão de qualquer um dos carros em viagem! Também este, um motivo para considerarmos esta viagem uma verdadeira aventura (e para muitos quando souberam do nosso objectivo, uma loucura)!!

Fica o mapa do percurso desta aventura:

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O percurso desta aventura marroquina

Agradecimentos:

Muitos agradecimentos haveriam a fazer, deixando os principais e desde já peço desculpas se me esqueço de alguém em particular!

Obrigado à minha namorada que, com pouca experiência em 4×4, não pensou duas vezes em alinhar nesta aventura!!

Obrigado aos Desorganizados do DesertUMM que me endereçaram o convite de alinhar nesta aventura “de loucos”!

Obrigado à LandVenture que nos proporcionou uma viagem única e alinhou também no desafio de fazer a viagem de UMM!

Obrigado a todos os que me ajudaram na preparação do carro, nomeadamente ao Carlos Tucha Barbosa e ao Rui Martins (o mecânico desta nossa aventura).

Obrigado a todos os amigos e entidades que contribuíram com roupa, brinquedos e outros brindes, que nos permitiram proporcionar um sorriso a muitas crianças e graúdos.

Por último, mas não menos importante, obrigado a todos os amigos e conhecidos que nos apoiaram e nos seguiram ao longo destes 11 dias de aventura e foram de diversas formas apoiando e fazendo chegar as notícias de casa e as mensagens de apoio!

OBRIGADO!!!

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2 thoughts on “Expedição UMM a Marrocos

  1. Obrigado nós por este resumo tão colorido que foi esta aventura. Nunca nos cansaremos de repetir que esta expedição foi memorável e jamais será esquecida.

    1. Obrigado Paulo! Se a organização nunca a esquecerá, o que dirão os que na maior parte, pela primeira vez visitaram Marrocos e fizeram uma aventura de expedição deste tipo e com estas particularidades!! 😉
      Grande Abraço!!

Comentários