A Mercedes

As relações familiares já tinham tido melhores dias. A minha Mãe, ainda de luto por causa do falecimento do pastor-alemão de seu nome Boy, disse-me inúmeras vezes: “Não quero mais cães, não vou cuidar de mais nenhum”, “Queres outro cão, cuidas tu dele!”
Para quem não sabe,o  Boy foi aquele cão imponente. Houve até quem tenha sido mordido por ele, embora sem qualquer malícia. Valeu para o susto . A sua imagem de marca era o rabo cortado. Dava-lhe um ar “agressivo”, quando no entanto era super temperamental. O seu falecimento deixou marcas profundas em todos os que frequentavam a nossa casa. A Leishmaniose venceu a batalha, aos 12 anos, passados uns anos de a ter contraído. Partiu não antes de se ter despedido da minha mãe, esperando por ela no fundo das escadas e, em jeito de despedida, deixou-nos a todos mais pobres.

O tempo passou e eis que chegou a altura. A escolha das raças, dos portes, do nome que se ia dar, era a conversa do dia. Eis que a raça do “cão da Scottex” foi a vencedora. E a seguir a isto veio a questão da cor: branca, preta ou castanha?
Já todos sonhavam com o momento de a trazer para casa. Como é que ia ser, onde é que ia dormir, quais é que iam ser os seus brinquedos, etc.
Perguntei eu: “como é que eu a vou saber escolher? “  – Alguém me disse que eu teria de chamar por ela e que havia de vir ter comigo. Assim foi.
Convidei um primo meu para me acompanhar e lá fomos nós, em busca daquela que iria acabar com o luto da minha mãe e quem sabe, unir a família.
Chegámos ao sitio combinado e fomos à tua procura. A ninhada de 12 espalhou-se pela varanda do apartamento e meninos para um lado, meninas para o outro, lá te foste dando a conhecer. Chamei pelo teu nome e, curiosamente, sentaste-te e olhaste para mim. Olá Mercedes, disse eu. Isto foi à 10 anos atrás.

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Chegaste à tua nova casa e eis que a felicidade se “instalou”. Era inevitável.

Cheiravas tudo e mais alguma coisa, roías tudo o que te aparecia à frente,  demos-te a conhecer o teu novo brinquedo:  a bola de rugby.  Foste, na altura, o maior motivo de felicidade que podíamos ter tido. Eras a agitação matinal, os xixis caseiros, os ténis e chinelos roídos. Mas, eram boas razões. Mas nem tudo foram rosas. Usaram-te como chantagem, eras o nosso ponto fraco. Protegemos-te sempre e em qualquer altura. Eras a nossa alegria, mas também o nosso “ponto fraco”. Foste quem me aqueceu de noite, deitada, muitas noites, naquela que era a nossa cama.
Foste crescendo e claro, acompanhaste-nos na nossa mudança de vida.

Vinhas de uma vivenda onde podias ladrar e correr à vontade e ficaste num apartamento, isolada e sozinha durante grande parte do dia. Foste o “terror” da vizinhança. Ladravas de dia e uivavas por vezes de noite, quando nos ausentávamos. Chegámos a receber chamadas de vizinhos a dizer-nos que estavas a ladrar à horas. Pudera, era um ambiente novo, tudo mudou e tu tinhas de te adaptar.
O que tinhas de irrequieta, tinhas também de doce. Cativavas todos os que passavam por ti, eras uma doce terrorista.  A Mercedes, ou Mimi para os mais próximos.

Pregaste-nos alguns sustos.

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Um deles quase fez com que tivesses ido desta para melhor. Após algum tempo, um quisto exterior junto a uma glândula mamária tinha atingido um tamanho exagerado e tiveste de ser operada. A nossa Amiga Veterinária ainda hoje fala do episódio como tendo sido o mais intenso e violento até hoje vivido por ela. De uma operação de “rotina”, ficámos a saber que tinhas escondido dentro de ti algo que nunca tinhas dado a entender que lá estava. Perdeste imenso sangue, e na chamada  que recebi fiquei a saber que, pelos vistos, não haviam boas notícias. Quem soube, chorou e, em segredo temeu o pior.

“Vem cá para a veres, porque eu não sei se ela dura até amanhã”  – disseram-me.

Nunca te tinha visto assim, fraca, sem vida. Eras a antítese do teu ser. Mas assim que me viste e assim que viste a tua “dona”, ganhaste vida, alento para continuar junto de nós.

Foram tempos complicados, estes. Não sabíamos se ias conseguir aguentar o pós-operatório. Pelos vistos, safaste-te bem.

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Hoje, estás cá, uns dias com dores nas articulações, outros com sono em demasia. Mas estás cá. Sei que não vais durar para sempre, mas sei que vais ser lembrada pela tua boa disposição e simpatia. Ainda hoje fazes amigos por onde passas. Não és uma cadela, és a Mercedes,a Mimi, a “preta”.
Apareceste nas nossas vidas num momento conturbado, mas ao fim e ao cabo, acabaste por enriquecer as nossas vidas.

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Agradeço-te por me deixares ser o teu “dono” e por nós sermos a tua família!

6 thoughts on “A Mercedes

  1. Não sei se somos nós que os escolhemos, se são eles que nos escolhem ou se é simplesmente amor… O tipo de amor que cresce quando se cuida de alguém… nós cuidamos deles e eles cuidam de nós… e como acontece com tudo o que mais amamos na vida eles são o nosso ponto forte e o nosso ponto fraco. Para quem teve a sorte de os ter na sua vida sabe o quanto eles fazem parte dela… Espero que os Boy’s e as Fluffy’s, estejam lá onde estiverem, olhem por nós e pelos nossos actuais amigos para que tenhamos o privilégio de fazer parte da vida deles mais uns tempos.

  2. Muito bonito. Linda a vossa Mimi, não tenho o prazer de a conhecer pessoalmente, mas tenho esperança de um dia estar com ela, deve ser um amor. O Boy, lindo de morrer, safado, quando me via saltava para cima de mim e mordia-me os cabelos, era o máximo. Partiu assim como o meu Teddy e mais alguns, enfim, enquanto cá estiveram tiveram muito amor e cuidados isso é o mais importante.

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