Quando o extremismo se torna natural e a sociedade se torna extremista

No rescaldo das eleições em França no passado domingo, vencedores e vencidos à parte e no seguimento de uma sequência de outros escrutínios mundo fora, destaca-se uma tendência que começa a ser habitual…o domínio das políticas extremistas e o número crescente de apoiantes/votantes destas mesmas políticas.

Fazendo uma breve retrospectiva dos últimos meses em eleições, temos a eleição de Trump nos Estados Unidos, cuja campanha e politicas se centraram numa posição de extrema-direita, apelando ao fecho de fronteiras, expulsão ou controlo de imigrantes e o constante apelo à separação americanos vs. estrangeiros. Pela Holanda também assistimos a eleições já este ano, com a extrema-direita invocando medidas similares e um nacionalismo extremo, o que lhes garantiu o segundo lugar nas referidas eleições. No passado domingo, pela França, à segunda volta, invocando medidas similares de exclusão de estrangeiros e um patriotismo extremista, a extrema-direita francesa concorria pela vitória nas eleições e a governação do país. Outras eleições houveram, com menos mediatismo, não deixando de ser as políticas de extrema-direita e patrióticas, presença assídua e com posição demarcada, levando os respectivos partidos/candidatos a resultados próximos da governação.

Olhando a estes acontecimentos, facilmente se identifica um denominador comum, as medidas extremistas e anti-imigrantes!

Serei só eu a achar preocupante esta tendência que se verifica nestas sociedades, algumas das quais estão listadas como as grandes potências mundiais e países na liderança no que ao desenvolvimento diz respeito?!

Dos anos 80 em diante o mundo evolui, criou-se a aldeia global, as populações ficaram interligadas pela tecnologia, revoluções fizeram-se em consequência da liberdade de informação, regimes caíram, liberdades foram criadas e igualdades de direito foram conquistadas! Hoje, seculo XXI, a tendência parece ser o caminho inverso, o isolamento das nações, o fecho à livre circulação e o predomínio de egoísmo patriótico e territorial, promovendo-se o princípio de que a terra pertence aos que nela nascem e o direito à mesma apenas a estes diz respeito.

Teremos atingido o expoente máximo da evolução da sociedade como a conhecemos e daqui em diante o caminho será percorrido em caminho inverso?!…

Parece-me de extremo egoísmo sociedades ou nações apoiarem tanto o fecho de fronteiras como promover e levar a cabo politicas de exclusão a imigrantes ou de preferência aos nacionais! Parece que todos apoiamos as liberdades, todos somos uma e outra causa, porque é socialmente bem visto, ninguém gosta de ver os seus direitos e o seu bem-estar em causa face a indicadores económicos que os governos insistem em cumprir e seguir à risca…no entanto quando toca à “nossa” porta, fora com os emigrantes que nos roubam o trabalho, que comem o que é nosso e que ocupam o chão que deveria ser nosso! Parece uma sociedade assente numa ideologia de “enquanto isto correr bem, somos todos cidadãos do mundo…quando isto der merda, é cada um por si!!” Será que é mesmo assim?

É também deste tipo de atitude que me refiro…o extremismo chegou a este ponto, recusar a ajuda a outros seres humanos e deixá-los literalmente à morte!!

Gravação revela que Itália negou auxílio a 400 sírios à deriva no Mediterrâneo

Começando por quem governa e exemplo disso é a União Europeia, a qual durante anos funcionou…porque havia dinheiro! Era tempo das vacas gordas (não das voadoras!). Quando alguns dos países membros começaram com dificuldades, porque seria impossível todos os países membros produzirem e dar lucro, afinal para uns terem lucro, outros têm de ter despesa, consumir e comprar…nessa altura, uns saltam fora, outros defendem o fim da união, outros há que apontam o dedo à expulsão de estados membros e por aí em diante, todas elas soluções no sentido de se “desmarcarem” dos países maus (os tais que só querem mulheres e vinho!).

E do macro passamos ao micro e também aqui os exemplos são muitos. Enquanto nada se passou, todos defendiam direitos humanos, igualdade entre povos, todos eram os tais “cidadãos do mundo” e o mundo era de todos…as fronteiras eram coisas impostas por antigos! Quando esta ideologia foi posta à prova, com a crise (infelizmente ainda existente) dos refugiados da guerra, a mesma falhou redondamente (e continua em falha)! De repente todos os refugiados eram terroristas, o mundo de todos afinal não era bem de todos e os cidadãos do mundo são só aqueles que podem pagar para consumir o que o turismo tem para vender! Porque acolher aqueles que à primeira vista não vão dar lucro e ainda vêm ocupar espaço por tempo indeterminado é coisa que não sai do papel e das boas intenções sociais!

Por todas estas tendências, ideais falhados e egocentrismo nacionalista, resta-me concluir que o extremismo que a dada altura repudiávamos porque tudo o que é extremista é demasiado, agora começa a tornar-se natural e prática comum e normal entre a sociedade! Já não se tolera, tomam-se medidas radicais!

Qual será o nosso destino? Não o de Portugal nem o da Europa mas do mundo em geral?! Devemos julgar as pessoas pelo lugar onde nasceram?! Devemos ser egoístas ao ponto de reclamar para nós o nosso país em vez de o partilharmos com o mundo?!

Ou seremos apenas meras marionetas do poder político ou económico e por um deles estamos dispostos a adoptar as referidas medidas extremas?!

Fica o devaneio…e a esperança de poder continuar a viver num mundo livre e a usar a expressão “cidadão do mundo” como uma realidade e não apenas um conceito ou ideal surreal!

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