Tenho cancro. E agora?

(foto de capa ilustrativa) 

À meses que andávamos a desafiar a Regina Rebelo, autora do blog “Espelho da Minha Alma” a escrever algo na nossa rubrica FPS. Afastada da escrita e do seu blog, voltamos a reforçar o convite e em boa hora acedeu retomar a escrita decidindo relatar na primeira pessoa o seu testemunho de um problema que infelizmente afecta tantas pessoas por esse mundo fora. Num mês que se promove e assinala a prevenção do Cancro da Mama, deixamos-vos com as palavras e acima de tudo o apelo da Regina. Vale a pena a leitura.

“Logo que o Bblog nasceu fui convidada a participar com uma publicação. Fiquei, naturalmente, entusiasmada e aceitei de imediato o desafio, contudo, nessa altura eu deixava a vida absorver-me e o tempo nunca me chegava para nada! Escrevia, no meu próprio blogue, que, desde 2009, ia alimentando com os meus pensamentos, mas para o qual já começava a padecer de falta de tempo. Na verdade, chegou uma hora em que acabei por deixar de produzir conteúdos. O quotidiano absorvia-me tanto que me retirava tempo e interesse para tratar do meu “estaminé”. Isto levou a que eu destreinasse a produção de textos e há mais de um ano que não escrevo nada que não emails profissionais e pareceres comerciais.

O Bruno veio reforçar o seu desafio ao lembrar-me que, afinal, nunca enviei nenhum texto, e eu acolhi, novamente, com satisfação e entusiasmo. Desta vez, por razões que adiante explicarei, o quotidiano já não me condiciona como antes e, nesse sentido, pus o cérebro novamente a trabalhar e dei “corda” às teclas. Quem sabe, o meu “Espelho da Minha Alma” reencontra aqui nova motivação e um bom empurrão para renascer.

Primeiro comecei por procurar o assunto que aqui traria. Levou-me isso a pensar o quão exausto deve ser o trabalho de cronista! Por outro lado, o tal treino mental e técnico (que eu tinha abandonado) gere-se e gera-se facilmente. É como fazer exercício físico, quem começa a correr num dia, não consegue fazer uma maratona no dia seguinte, o que justifica que a continuar assim, nunca na vida, alguma vez, escreverei um romance (nem um conto, que seja!).

Tenho a motivação, falta-me a matéria. Na escola os professores davam o tema para a composição e eu, pouco dada a ser mandada (em criança era uma disciplinada indisciplinada ou uma indisciplinada disciplinada – nunca soube muito bem distinguir a diferença), preferia sempre o livre, que isto de não ter liberdade de escolha era coisa que já me incomodava desde tenra idade.

Ora, agora, que tenho a idade, o juízo e a liberdade, não tenho a originalidade! Verdade seja dita, a intuição sempre me acompanhou, mas a criatividade sempre brincou comigo às escondidas e ganhou sempre.

Tentando organizar ideias (larguei a indisciplina mas abracei a desorganização: sou uma desorganizada organizada ou uma organizada desorganizada! (continuo sem saber distinguir as diferenças) Questiono-me: “E vou escrever sobre quê? “Falo de quê?” “O que terei eu de interessante para trazer a quem visita o Bblog?”

Resolvi que deveria abordar algo que trouxesse alguma utilidade, algum interesse, alguma informação útil, senão por que razão escreveria eu aqui e por que razão alguém viria ler os meus débitos literários? Eu estou muito habituada, por inerência profissional, a débitos (mais de números que de letras), mas gosto também muito dos créditos. Os dos números também me agradam bastante quando são a meu favor. E dando crédito ao tema, tinha-o livre, queria-o atual. Não encontrei outro assunto que não relatar, na primeira pessoa, uma das experiências da minha vida que, espero, desperte quem venha a ler este texto e foque o seu pensamento e as suas ações em preocupar-se consigo próprio.

Tenho cancro e agora?

Depois do diagnóstico a pergunta que paira é esta: “Tenho cancro e agora?”

Sobre isso, já respondo. Antes disso, um pequeno enquadramento: Sempre fui uma pessoa cuidadosa com as consultas de rotina, sobretudo de medicina geral e ginecologia, sempre as fiz anualmente, e todos os exames de diagnóstico inerentes às duas especialidades. Para além disso, sempre fui saudável, nem sequer as constipações ou gripes foram maleitas que me chateassem muito. Achei sempre que a minha única “doença” era o stress e a falta de tempo quotidianos.

Vim a aperceber-me (pelas conversas e abordagens que a doença origina) que muitas mulheres não são cuidadosas. Fiquei pasmada ao saber de casos de mulheres que nunca fizeram revisões de parto, que chegam a estar 10 anos ou mais sem consultar um(a) médico(a) ginecologista e que não fazem o autoexame (palpação da mama), descurando por completo a prevenção e o eventual diagnóstico precoce de um cancro da mama.

Vamos então ao relato da minha experiência antes do diagnóstico: Como disse anteriormente, fazia anualmente as consultas de ginecologia e os exames de diagnóstico nos prazos recomendados, sempre. Nunca uso desodorizantes com alumínio e nunca uso antitranspirantes. Sempre fiz o autoexame. Em junho de 2015 tinha tido a consulta, tinha feito exames, tudo ok. Em agosto de 2016, no meu período de férias, tenho novamente consulta. Faço os normais exames de diagnóstico: mamografia, ecografia. Nada de grande referência, uma densidade maior numa das mamas, apenas. Não tive grandes ansiedades, convenci-me que isto não era nada, gozei as férias, a praia, o lazer, e tratei aqueles exames com a normalidade habitual, desde os 40 que os fazia. Vem uma ressonância magnética para tentar perceber melhor a origem daquela massa. Levo os meios de diagnóstico à minha médica que, graças a Deus (talvez mais a ela própria) é excelente, extraordinária, atenta e de grande experiência e não fica satisfeita com o facto de estes exames serem inconclusivos, diz-me ela: “Não sabemos que massa é esta e precisamos de saber” e lá vou fazer uma biopsia. Espero 15 dias pelos resultados. Continuo com a convicção que não é nada e vivo o quotidiano com a mesma naturalidade habitual.

O diagnóstico: carcinoma invasivo. E agora?

A primeira coisa que fiz foi sair do trabalho em modo apressado, nem sequer arrumei a secretária, e corri para casa. Telefonei ao meu marido (que me dá o maior apoio e tem sido o meu grande suporte). Informei as minhas filhas. Não chorei. Elas também não. Abraçámo-nos as três. Disse-lhes que iria dar cabo disto. As minhas filhas, julgo que por boa influência e educação dos pais, são duas meninas que sabem que a vida é difícil, que de bandeja traz-nos mais coisas más do que boas e que as conquistas, as vitórias, as alegrias e tudo o que nos torna mais felizes tem de resultar de grande empenho, grande motivação e grande trabalho. Eu cá nunca tive borlas, sempre tive de batalhar muito. E este cancro também iria ter luta.

Depois iniciam-se consultas, exames, mais resultados de diagnóstico, mais exames e mais consultas e vereditos: é invasivo, ocupa ¼ da mama e tem de fazer mastectomia. E fiz. Passados menos de 15 dias estou em modo recuperação de cirurgia que me deixou “amputada”.

Como é que se vive com esta realidade?

Considerando-a uma realidade. Sendo objetiva, percebendo que não é o pior de tudo, percebendo que o amor sólido, forte e cada vez maior que alimenta a tua longa relação (29 anos) não é abalado com coisas menos significantes e que o casal sabe lidar com esta situação de forma muito saudável e bonita. Não ter mama, numa mulher, não é pior que não ter um braço ou uma mão em qualquer pessoa. Considero esta última circunstância bem pior. Ou não ter qualquer um dos sentidos. Ou ter diabetes e ter de injectar insulina diariamente, ou fazer hemodiálise frequentemente, ou ter uma doença crónica, ou uma doença rara, ou sofrer de dor frequente. Não consigo hierarquizar nenhuma destas doenças e não consigo definir que isto ou aquilo é mais grave que outra realidade qualquer. A mim, muitas vezes, as dores da alma doeram-me mais do que qualquer dor física. E dessas, da alma, eu não quero mais nenhuma. Se depender de mim, não terei nenhuma. E este cancro não me vai perturbar, nem me vai derrubar. Quanto a matar, nunca se sabe, mas como a coisa mais certa que todos temos é a morte, essa é inevitável, e surge, em tantos casos, quando menos se espera, e quando se espera, nunca estamos preparados para ela, portanto, para morrer estamos sempre a jeito. Eu também.

Houve uma altura em que me preocupava muito com o trabalho que tinha pendente, com os processos que se acumulavam dentro da gaveta, e fora dela, tal o espaço se tornava insuficiente; preocupava-me com as coisas da casa que tinha para fazer, com a roupa por engomar, com os vidros, o pó, e preocupava-me com a minha exigência em ser perfeita e em fazer bem, e a tempo, e a não querer errar. Às vezes pensava: “E se eu morro de um dia para o outro? Tenho de ter as coisas em ordem para o caso de morrer assim de forma súbita.” Isso tornava-me preocupada em demasia (nunca fui, em situação alguma, uma maria-não-te-rales ou pessoa de encolher os ombros), interventiva, exigente, muitas vezes rebelde. Não deixei de ter, pelo menos, estas três últimas características, mas tornei-me mais zen. Aprendi a controlar a preocupação ou a ansiedade, aprendi a não sofrer por antecipação, e aprendi que nós só fazemos falta a quem nos estima e gosta de nós, fazemos falta aos verdadeiros amigos, e é com esses que temos que contar, é a esses que temos de estimar e é com esses que devemos privar. O meu entendimento é que só faz falta quem está, só faz falta quem estima, só faz falta quem pratica o bem.

Tudo o resto, aquelas coisas que todos conhecemos, a hipocrisia, o cinismo, a falsidade, a indiferença, a essas interdito-lhes o convívio. Privo-as do direito, faço-lhes um abandono voluntário, torno-as sem abrigo. Não acolho, não alimento, ignoro. Estimo todo aquele que me estima, elevo a relação, exponencio o bom e o bem, e considero-me um excelente ser humano. Não sou modesta? Neste aspeto, não, não sou.

Ensinei as minhas filhas a serem assim, e são: generosas, humildes, trabalhadoras, verdadeiras amigas. Se eu morrer já hoje, o meu legado está feito: deixo duas jovens preparadas para a vida e para darem de si sempre o seu melhor, deixo um marido que sei que fiz feliz e me fez a mim (devo quase tudo o que sou a ele), deixo uma família inteira e grande (sem exceção/exclusão de um único elemento), de sangue e de afinidade (a do meu marido é tão minha quanto dele) que me ama imenso, deixo muitos amigos do coração, do melhor que tenho, e não terei ninguém que tenha más referências a me fazer. Sou boa pessoa, gosto muito de mim e não há cancro, nem mama (ou falta dela), nem medicação continuada, nem consultas ou exames frequentes, nem o termo pesado de “doente oncológica” que me abalem a ponto de eu descuidar de mim e do meu bem-estar.

Nós só conseguimos ser felizes se cuidarmos de nós, pois quando cuidamos de nós e estamos bem connosco próprios, cuidamos de todos os que nos rodeiam e tornamos tudo mais bonito e de maior felicidade.

A vida é apenas uma passagem, e o que cá deixamos foi o que cá fizemos. É assim que vivo cada dia da minha vida, e estou de muito boas relações com ela. Sou uma pessoa feliz.

Quis, não o acaso, mas o meu cuidado permanente com as consultas de rotina e a excelência da minha médica, que o meu diagnóstico fosse precoce. Permitiu-me viver este ano de um modo menos ansioso e mais tranquilo e permite-me que até me surgir o que quer que seja noutra ocasião (sou muito objetiva) viva feliz e sem sofrimento.

E não é isso que todos queremos da vida?

Então, depois deste testemunho enorme, e agradecida pela paciência em me lerem, recomendo a todos os que aqui chegaram ao fim, que pensem nisto, façam check-ups anuais, exames de diagnóstico frequentes e estejam atentos, pois as doenças identificadas precocemente permitem que a nossa vida seja tão feliz (ou mais ainda) no depois da doença do que no antes.

Quis o destino que tudo isto se passasse comigo no mês de Outubro, o mês escolhido para promover a consciencialização sobre a doença e partilhar informações sobre o cancro de mama – Outubro Rosa – permitindo a sensibilização para a prevenção e diagnóstico precoce do cancro da mama. A 15 de outubro assinala-se o Dia Mundial da Saúde da Mama, a 19 outubro o Dia Mundial do Cancro da Mama e a 30 de outubro o Dia Nacional de Luta Contra o Cancro da Mama.

E isto é de facto muito importante.

Deixo esta imagem, de alerta, e recomendo que em lugar de colocarem laçinhos nas fotos de perfil, alimentarem murais com coraçõeszinhos, aderirem a desafios (meio absurdos, que a nada levam), partilhem informação importante e, sobretudo, olhem para as mamas (leia-se: façam o autoexame), façam o rastreio e tratem bem todos os que vos rodeiam, com um sorriso, uma palavra meiga, um auxílio, um relacionamento cordial e respeitador. Por detrás de um rosto, há sempre um coração. Nunca sabemos o que se passa com cada uma das pessoas que está à nossa frente, mas sabemos que o nosso estímulo terá a sua resposta.”

Regina Rebelo

2 thoughts on “Tenho cancro. E agora?

  1. Muito bem Regina. É assim que se olha de frente
    Um grande exemplo para todos nós. E verdade verdadinha, deixem-se de futilidades no Facebook

  2. Penso que ninguém já tinha dúvida da força desta “lutadora” que encara a vida com frontalidade para resolver os problemas que a vida nos trás todos os dias. Por aqui fica o registo da pessoa forte e determinada que amamos do coração.

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