Como já vem sendo hábito, as viagens ao continente Africano são uma constante, mais propriamente com destino a Angola e numa das últimas viagens  defini como objectivo ed fim de semana, ir (finalmente) conhecer a Praia do Sarico. E “finalmente” porque este foi um dos meus primeiros objectivos quando comecei a viajar para esta geografia, tendo a primeira tentativa fracassado, mas já lá iremos a essa aventura.

Sobre a Praia do Sarico, para quem não conhece poderá julgar tratar-se de mais uma vulgar praia ou uma praia com algum teor de paradisiaco ou local isolada, como é comum encontrar por estas paragens. Desengane-se quem tem essa ideia. A Praia do Sarico é literalmente um cemitério de navios!

É talvez um conceito estranho ou desconhecido para a maior parte de nós, afinal não é própriamente o contexto que esperamos encontrar numa qualquer praia. No entanto, não é caso único e numa rápida pesquisa encontramos várias praias pelo mundo com este propósito. os cemitérios não são algo dos dias de hoje, mas um “fenómeno” de algumas décadas atrás e tinha por base a redução de custos no abate de navios e grandes embarcações. Determinados países, em vez de desmantelar os seus navios e consequentemente suportar os custos dessas operações, navegavam os mesmos até à costa de países terceiros, alguns simplesmente por serem pobres e não possuirem meios para controlarem a sua costa, outros por negócio, e literalmente encalhavam-nos numa das praias e ali ficavam até a natureza actuar e realizar o seu papel de degradação e deterioração dos materiais… Obviamente um processo que demora décadas ou séculos para que todo um navio se detriore por completo e suma, pelo que nos ias de hoje, apesar destas práticas já não serem tão comuns, espalhadas pelo mundo continuam a existir estas praias, hoje repletas de esqueletos de navios em deterioração.

A norte de Luanda, sendo necessário inclusive passar pela província do Bengo, existe uma praia que tinha este propósito, a Praia do Sarico! São vários quilómetros de costa, entre praia acessivel e falésias, ao longo das quais se podem verificar, inclusive no Google Maps, estes barcos encalhados.

A curiosidade e peculariedade de um local destes, desde cedo me despertou o interesse e na minha primeira viagem a Angola, há alguns anos atrás, tentei visitar este local. Tudo começou com o arranjar de um 4×4, porque o acesso à praia seria por caminhos não asfaltados. Chegado o sábado, logo pela manhã, lá arranquei sozinho, com o GPS no telefone, até ao destino. Uma viagem sem incidentes até que, já muito próximo da praia (já conseguia ver as torres de alguns dos navios encalhados no areal) num caminho de terra batida com um misto de areia, a pick up atascou! Nem para a frente, nem para trás…não saía dali! Sozinho, sem rede e atascado no meio de nenhures, pois estamos já demasiado distantes da cidade para haver pessoas por perto a quem pedir ajuda. A solução passou por caminhar até uma aldeia de pescadores ali perto e pedir ajuda. Pedido ao qual responderam de imediato cerca de 15 jovens, de idades entre os 12 e os 20 e poucos…para dizer a verdade, ainda não sei ao certo de onde surgiram todos eles de forma tão rápida e foi intimidante, afinal estava claramente em minoria! Certo é também que, em Angola, como em grande parte do continente africano, tudo tem por base o negócio e esta não seria exceção. Ainda a caminho da pick up já um dos jovens (o lider do grupo) me questionava sobre o pagamento, sendo que me encontrava ali sem dinheiro nem bens propriamente valiosos para a troca. Chegados à pick up e após alguns minutos de tensão entre estratégias sugeridas por eles para que de alguma forme eu conseguisse fazer chegar dinheiro até eles e a minha insistência em que não lhes poderia pagar, decidi agradecer a disponibilidade mas seria eu mesmo sozinho a tentar retirar o carro daquela situação. Facto é que lá no fundo e debaixo da pele de negociantes, estavam também jovens com coração e neste momento o discurso alterou-se e disponibilizaram-se então a ajudar-me pois não me iriam deixar naquela situação sozinho.

Desatascada que estava a pick up, com alguns jovens a correr ao lado, outros em cima e dando boleia a dois deles, a caminho da aldeia dos pescadores, para os levar de volta a casa, eis que ertomaram as negociações…mas como as tentativas anteriores não tinham surtido efeito, desta vez o negócio era outro, à troca pela ajuda que me haviam prestado, teria de levar os “cotas” de um deles para a cidade, tarefa que aceitei de imediato pois parecia-me um preço mais que justo pela ajuda que me deram!

E assim foi a minha primeira tentativa de visitar a Praia do Sarico que, como se percebe pela sequência deste episódio, terminou a escassos metros da praia, não tendo chegado a visitar a mesma, pois o precalço com a pick up foi intenso o suficiente para continuar com esta aventura neste dia! Ficaria para uma outra oportunidade…

E foi desta! Alugámos um candongueiro (os taxis de Angola, as típicas Toyota Hyace azuis e brancas) e lá fomos em grupo até à referida praia, onde desta vez, consegui ver os navios encalhados de perto (pelo menos aqueles que estão junto ao areal). Também esta visita terminou numa inesperada aventura, mas deixo esse episódio para outros registos!

Para terminar, ficam algumas imagens do que pode ser visto nesta praia e ao longo de vários quilómetros de costa a norte de Luanda para que tenham uma ideia do que é um cemitário de navios…cenário no mínimo peculiar!

Written by Benjamim Pitacho
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