Dezassete (!!!) anos separam a memoria desta foto, foi neste local, neste canto da sala e provavelmente nesta mesa que te conheci.

Lembro-me de ter cruzado a vista numa noite de sábado num local emblemático na altura aqui na região, nunca tinha visto nem tão pouco sabia com quem se relacionava, mas houve algo, que ficou na retina, um je ne sais quoi que me levava a querer saber quem era. A misteriosa morena simplesmente não se afastava da muralha de amigas, não havia como aborda-la sem sentir a censura ou gozo de quem a defendia e honestamente, lembro-me tão bem, tinha aquele ar de quem não dava confiança e provavelmente à menos feliz abordagem levaria uma valente tampa, o que se diga, sempre fez parte do jogo de solteiros. Mas havia esse algo, que não se explica, que me fazia correr esse risco calculado. Por ironia o destino colocou uma pessoa em comum que se prontificou a fazer a “ponte”, tratou de falar com a irmã e saber mais sobre a misteriosa morena nunca antes vista por estas bandas e que me encantava e ao mesmo tempo me assustava. Com essa ajuda preciosa veio ate mim os números mágicos do contacto da morena, havia recebido um relatório de que era alguém da zona, que estudava e vivia fora dali e havia terminado um longo namoro. A muralha de amigas e a expressão de pouco amigos estava explicada, era alguém que estava na defensiva e que provavelmente não estaria já pronta para um novo amor, o desafio subia de nível.

Numa época onde a rede social era dominada pelo Hi5, o SMS era o modo de comunicar via chat e assim foi, um SMS de forma gentil e educada que veio sem resposta… passaram quase 2 semanas, nada! Quando dava já o assunto como perdido eis que, resposta! Não tinha saldo no cartão e só havia respondido (se bem que de forma defensiva) à minha pensada e elaborada abordagem. Soube mais tarde que foi por insistência da irmã e amigas (na qual agradeço para o resto da vida!) que acabou por aceder a um blind date (para ela!) deixando me convencido que tinha um fantástico poder de persuasão, só que não.

Foi na Casa de Campo que decidimos nos encontrar pela primeira vez, depois de uns SMS’s e telefonemas, foi numa sexta feira como esta que hoje aqui estamos que a morena decidiu arriscar e vir ao desconhecido e me conhecer. Foi astuta, levou uma amiga e foi com as duas que acabei por passar o resto da noite à conversa, neste espaço, hoje remodelado e com outro nome que há dezassete anos nos conhecemos. Foi um encontro perfeito? Nada disso! Foi um desastre, para quem tinha tanta curiosidade em conhecer alguém e passou a noite toda a conversa com a amiga, foi o “possível” naquela noite.

Mais uma vez o destino encarregou-se de não deixar morrer o assunto, os SMS’s continuaram bem como os telefonemas e depois de muita paciência e ter caído nas boas graças (dela e de quem a rodeava) começou uma bela amizade dominada por um sentimento de Dejá Vu que nos deixava perplexos na forma como parecia já nos conhecermos à imenso tempo ( talvez noutra encarnação) e nos descobríamos tão naturalmente.

Há meses, este espaço abriu novamente (agora chama-se Casa do Ferreiro) depois de uns anos abandonado, surgiu melhorado, mas com aquele decor, que para quem vivenciou muitos anos mal entra sente a nostalgia de outros tempos. Fui eu o primeiro a lá voltar, e senti que numa sexta feira também, haveríamos de voltar a aqui estar, na mesma mesa, no mesmo sitio, a celebrar o nosso destino, dezassete anos depois onde tudo começou.

Written by Bruno Félix
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